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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Diálogos entre Índios


Juvenal.

Lendo sua mensagem fico mais animado diante do tal de empoderamento indígena. Os governos realmente não conhecem nossos valores, mas também começo a acreditar que isso nada importa para nós, ou como dizia o grande Jesus, o Cristo: quem tem ouvido pra ouvir, ouça....

Um dos trabalhos que compartilhei com hermanos indígenas foi analisar entre nós mesmos, o sentido do chamado "empoderamento indígena" e a "autonomia indígena", termos que os homens brancos criaram para definirem a nós como se comportar se queremos ter acesso a isso seja no individual e no coletivo. Então nasceu a chamada consulta livre, previa e informada e o no caso do Brasil, o governo começou a fazer micro-seminários e a levar um monte de papéis, fazer crachás, comentar e fazer grupos de trabalhos. Tres dias depois a consulta estava consolidada.

Por isso, escrevi ainda hoje um texto sobre a Mulher Indigena Doutora, e vejo que o caminho indigena é outro, do empoderamento sim, mas sem pedir benção ou crachá para o homem branco, e isso eu quase não estava enxergando, mas acho que está surgindo uma canoa na curva do rio... e vem cheio de guerreiros e guerreiras, mas todos sem flecha. Agora são cameras, computadores e celulares... Que coisa!

Abração.

Marcos Terena


Em 26 de janeiro de 2011 04:43, Juvenal Teodoro escreveu:

Onde Marcos Terena diz amem, precisa ousadia para dizer A.., mas vamos lá.
Acredito que o Dr. Daniel Munduruku conhece muito o I modus vivendi (
palavrinha) dos milhares de indígenas que mora na aldeia. Puxa, como
é difícil falar com eles. Eles estão na aldeia. É um movimento rural.
O que não impede aquele indígena fora da aldeia manter contato com um
mundo produtivo e desenvolvimentista que quer vê-los fora da aldeia,
de preferência em uma favela sonegando a sua identidade. E assim
enfraquece o movimento indígena. Diferente dos movimento indígenas,
por ser urbano o movimento negro teve líderes nacionais, alguns
mundiais, suas vozes ecoaram pelos quatro pontos cardeais.
A avalanche de protestos e lutas do despertar recente, deu resultados.
Deu-se mais atenção, escola, liberdade de entrar no ônibus do branco, acesso
aos meios de comunicação, trabalho, acesso ao poder nas empresas – a
presidente da Xerox é uma negra – eles destacaram-se ente os brancos
nos esportes, e na política, pois na África sempre se destacaram
nestas posições. Sempre foram reis e rainhas, empresários, juízes e
outras autoridades.
Aqui não foi assim. Os colonizadores já conheciam o mundo negro desde
Júlio Cezar e Marco Antonio que da África se apoderaram dela mas não
como foi feito na Aby-Ayala. A sua rainha. Ora aqui foi diferente. O
povo indígena era os donos e tinha a posse de um grande continente que
foi dividido em três ou quatro. Um continente cujas riquezas produtiva
vegetal e animal capaz de suprir e de certa forma acabar com a fome e
a miséria de então decadente continente europeu, as riquezas minerais
e matéria primas foi capaz de revolucionar o mundo de então. Portugal
e Espanha, Holanda, Inglaterra e França desfrutaram destas riquezas
como nem uma outra nação. Algumas delas investiram na educação e na
cultura, fundaram um modo peculiar de produzir – o capitalismo –
próprio para dar conta do fantástico empreendimento. As ciências
econômicas e sociais surgiram aí, o mercado toma novas dimensões.
A tecnologia deu poder a seus possuidores, até hoje, a chantagem da
tecnologia, do conhecimento e do mercado esmaga os povos. Os povos
transformaram-se em nações e as nações em uma aldeia global.
Ainda é a terra e o sub solo o gerador das riquezas do mundo mas sem
o saber, a tecnologia e o acesso ao poder de estado para pouco serve.
Leis foram imediatamente criadas por estados democráticos para uns e
autocráticos para os outros. Os povos indígenas sempre – sempre -
foram os outros. As leis impostas mediante a bazuca deram
sustentabilidade aos governos nacionais e estes submeteram aos povos
indígenas, habitantes primevos (mais uma palavrinha) destituíram de
sua possessão , sua maior riqueza – a terra – e com a terra
desmantelou-se a cultura do povo indígena.
Vejo por esta mira a razão das lutas internas, do distanciamento dos
povos indígenas dos centros de poder – cultura é poder – porque índio
não tem vez? Para não despertar sobre seus direitos. Se índio tiver
vez terá também, voz e poder, como teve Kffi Annan, Mandela, como tem
Senador Paim, Barack Obama. O índio que sabe questiona a validade do
ato do tratado de Tordesilhas, de Madrid, de Santo Idelfonso, mas não
há índio com direito a voto nos tribunais, nem acesso a cultura.
As questões internas existem em todos os lugares. Entre os índios
acredito ser, de certa forma útil para mantê-los fora da disputa pelo
poder da voz. Acho que o povo índio, aqueles que detém alguma parcela
de poder e voz tem feito sua papel, mas precisa avançar. O Daniel
está escrevendo, seus livros chegam nas livrarias e nas escolas, Dora
chegou ao ministério da Cultura, uma indígena graduou-se nas forças
armadas e Marcos Terena é um embaixador. Existem índios com
carteirinha da OAB falando nos tribunais. Desanimar jamais nem
cansar, é preciso perseguir, se expor para chegar aos lugares onde
se podem criar leis e revogá-las, onde a fala do índio será ouvida,
caso não seja pelo voto, mas que seja pelo saber e a teima, em
qualquer tribunal, assim fez Martin Luter King, Reverendo Jesse
Jackson, o Olodum, Netinho, Abdias Menezes .
Sem esquecer do exemplo tinhoso do Cacique Mario Juruna, do Cacique Raoni e outros heróis indígenas.
Tenho Dito
Juvenal Payayá

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